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   A grande reação solidária diante do sofrimento causado pelas enchentes de novembro no leste de Santa Catarina nos mostrou que algo pode ter mudado em nosso povo. Em nenhum momento, vimos, ouvimos ou lemos nos meios de comunicação a responsabilização destes ou daqueles por causa das três semanas de chuvas.
   Nem os moralistas de plantão nem os arrogantes na fé tiveram coragem de sair a público, como seguidamente acontece, para dizer que a chuvarada foi mandada por Deus para castigar este ou aquele. Pobres, ricos e de classe média sofreram o impacto das chuvas. Ela não poupou luteranos, espíritas, pentecostais, católicos, des- crentes, etc. A chuvarada não distinguiu prédios públicos, privados ou de igrejas. Os efeitos das chuvas vieram sobre todas as pessoas, indis- tintamente. Também os demais seres viventes foram atingidos mortalmente.
   Diante de tanto sofrimento, temia que a palavra dilúvio fosse aparecer com força, como se um deus vingativo viesse aniquilar os pecadores e sal- var uma minoria. Esta versão nada bíblica do dilúvio não teve força desta vez. Antes, vingou a promessa do Deus que não mais castigaria as pes- soas e os demais seres com um dilúvio (Gênesis 9).
   Contudo, algumas perguntas ficam pairandono ar, como De que forma a solidariedade se comportaria se as chuvas tivessem atingido uma região distante e com a qual não temos nenhum envolvimento? Temo que a versão do deus que manda desgraça para uns com objetivo de salvar uma minoria vingaria como argumento para o não envolvimento solidário com as vítimas.

                 
     ***A misericórdia de Deu  é profundamente  ecumênica**

   Algo semelhante aconteceu quando ondas gigantes afogaram tudo o que se encontrava nas praias dos mares de países de minoria cristã. Não faltaram, entre os cristãos, pessoas que viram nasondas gigantes (tsunami) um castigo divino aos infiéis que não acreditam em Jesus. Também não faltam, entre certos seguidores de Jesus, aqueles que atribuem a seca no Nordeste ao catolicismo dos santos.
   A misericórdia de Deus é profundamente ecumênica. Ela não olha para credos, etnias, classe social, nacionalidade ou condição sexual. A solidariedade ao povo de Santa Catarina é um sinal desta misericórdia e de que um outro mundo sem muros é possível.
   Quem segue lendo os versículos bíblicos que vêmapós a promessa de que Deus não trará mais dilúvio para acabar com toda a carne, percebe a razão da bondade ecumênica de Deus. A terra ainda estava encharcada quando os que foram salvos pela arca de Noé voltaram a pecar. A torre de babel, que foi construída com água do dilúvio, é sinal de que só Deus cumpre a promessa de salvação.
   A solidariedade persistirá nos longos anos de reconstrução do leste de Santa Catarina ou teremos que dar razão ao escritor Saramago, que nos chocou recentemente com a seguinte frase O ser humano não merece estar no planeta Terra. Os ateus, como Saramago, fazem grandes perguntas que acenam para a nossa forma de explorar a natureza.
   Se confiarmos tão somente em nossas obras humanas, teremos que dar razão a Saramago. Se olharmos para a bondade divina, as ações de reconstrução continuarão solidárias, o que não dispensa a vigilância constante na distribuição dos recursos.

                                                                              P. Dr. Oneide Bobsin
                                                Pastor da IECLB e Reitor da Faculdades EST