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Prédica: Hebreus 1.1-4;2.5-12
Leituras: Gênesis 2.18-24 e Marcos 10.2-12
Autor: Cledes Markus
Data Litúrgica: 19º Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 04/10/2015
Proclamar Libertação – Volume: XXXIX

1. Introdução

É tempo de Pentecostes, e o 19º domingo dessa época. Este tempo celebra a vida e o ânimo que Deus, através do Espírito Santo, tem concedido a seu povo. Se as comunidades estão firmes no testemunho evangélico, é porque Deus nos tem concedido sua graça. O Espírito que animou os discípulos é o mesmo que sopra entre nós, permitindo que sigamos como comunidade de fé. Através dele, a obra de Jesus tem continuidade. A revelação de Deus tem continuidade.

A revelação de Deus em Jesus Cristo é tema central do texto de Hb 1.1-4; 2.5-12. A mensagem é dirigida a uma comunidade que sofre por causa de seu testemunho e, por isso, é tentada a renunciar à fé em Cristo. Ela precisa ser animada a continuar firme, ouvir que Deus é fiel em seu amor e que vale seguir na perspectiva de um novo céu e uma nova terra. Na exortação, é relembrado que Deus tem agido de muitas e variadas formas na história do seu povo, e no presente essa revelação concretiza-se no Filho. Afirmar a ação em Cristo torna-se fundamental. O Filho esteve com o Pai desde a criação, sendo que todas as coisas são sustentadas por ele. Deus fê-lo herdeiro de todas as coisas. Além disso, também é necessário enfatizar que seu ilho encarnou-se, solidarizando-se com a humanidade a ponto de entregar sua vida na cruz em favor de todos.

Em relação às leituras deste domingo, Gn 2.18-24 é o relato da criação em que aparece a inter-relação entre o Criador e a criação. O Criador está empenhado em encontrar companhia para o ser humano; esse, por sua vez, coopera com a criação, dando nome e estabelecendo relações com os animais. E o relacionamento entre homem e mulher constitui-se de forma tão íntima e próxima, que se tornam uma só carne. A descrição é de um espaço de vida digna e fraterna, de solidariedade e cooperação, de comunhão entre Deus, as pessoas e a natureza. Assim, o texto mostra-nos na história da criação a vontade de Deus: pessoas em companhia de Deus vivendo fraternas relações entre si e com a natureza. E conforme o texto da prédica, Jesus Cristo está nessa ação criadora de Deus e torna-se herdeiro de todas as coisas.

Na leitura de Mc 10.2-12, diante do questionamento se é lícito homens repudiarem suas mulheres, num contexto em que a mulher repudiada ficava desamparada, Jesus responde remetendo ao princípio da criação, em que o matrimônio faz parte da boa vontade de Deus e as relações entre homens e mulheres devem ser tão íntimas, que se tornem uma só carne.

2. Exegese

Caráter literário: Hebreus distingue-se das outras cartas do NT por não possuir uma introdução com saudação e endereço. Apenas na conclusão aparece uma saudação típica de carta. O seu estilo é de prédica, e o autor chama-a de palavra de exortação (13.22). A mensagem gira em torno de textos do AT.

Autor: A carta não menciona o autor. Sugerem-se muitos nomes, entre os quais Paulo ou algum de seus discípulos. Conforme Lohse, talvez jamais se descubra o autor. Contudo fica evidente a sua posição teológica, que procura ajudar a segunda geração cristã contra a tentação e o desânimo ao explicitar que a fé está intimamente ligada ao ser cristão.

Destinatários: A carta também não identifica os destinatários. Segundo os exegetas, o título Hebreus somente foi atestado por volta de 200 d.C. Identifica-se que os leitores conheciam o AT e o serviço sacerdotal, mas nem por isso se pode afirmar que eram judeus convertidos, pois também os gentílico-cristãos liam e estudavam o AT. A informação, segundo Hb 2.1-4, é que eram pessoas da segunda geração cristã, o que leva para os anos 80 da era cristã.

As referências sobre a comunidade encontram-se na própria carta. Hb 10.32ss e 13.3 mencionam que se vivia uma experiência de sofrimento: as pessoas passavam por humilhações e insultos públicos, sofriam perseguições e prisões e tinham seus bens confiscados. No testemunho, a comunidade solidarizava-se com as pessoas que sofriam mais como escravos e escravas, pessoas prisioneiras e humilhadas. Defendia os rejeitados e apoiava quem era explorado. E não ia com a maioria para fazer o mal ou para torcer o direito. Sua opção era a solidariedade comunitária, e não os valores e as práticas de quem a perseguia. Provavelmente também havia pessoas estrangeiras na comunidade, que sofriam restrições em termos de preconceitos e perda de direitos. Pelo seu testemunho, a comunidade havia perdido o status dentro da sociedade e via-se desonrada. Diante disso, a comunidade estava cansada e enfraquecida. Perguntava pelo sentido do sofrimento de Cristo e de seu próprio. Não conseguia entender por que isso podia acontecer, acreditava-se nas promessas e na vitória de Jesus. O risco de fraquejar era grande. Algumas pessoas abandonavam a comunidade.

Conteúdo: O conteúdo quer exortar a comunidade em dificuldades a olhar para seus primeiros tempos e ficar firme. Convoca a não abandonar a confiança e a fé em Jesus Cristo por conta dos riscos que enfrenta. Lembra que a comunidade participará da glória do Filho de Deus. Na exortação, reafirma-se a ação amorosa de Deus em favor de seu povo. Os seus cuidados, desvelos e providência fazem–se presentes. Deus nunca deixou de falar e se revelar. Em outros tempos foi de outras maneiras, mas no presente, nessa comunidade em que a fé em Jesus está abalada, é necessário acentuar a revelação radical em seu Filho.

O texto: A perícope está dividida em duas partes: a primeira (1.1-4) apresenta uma exposição a respeito da revelação de Deus, que nos tempos atuais se concretiza em Jesus Cristo. A segunda parte (2.5-12) procura demonstrar que a revelação em Jesus Cristo é muito superior à dos anjos.

V. 1 – O versículo ressalta a contínua revelação de Deus a seu povo. Ele desdobra o falar de Deus em “antigamente” e “nos últimos dias”. Antigamente, Deus falou aos pais, e nos últimos dias, a nós. A revelação aos pais aconteceu por intermédio dos profetas e a nós por meio de seu Filho. Essa correlação expressa uma continuidade entre a revelação aos antepassados e a revelação em Jesus Cristo.

Destacam-se também os advérbios polymerōs (muitas maneiras) e polytropōs (várias maneiras). As duas expressões, em frases paralelas, são palavras com som semelhante, de modo retórico, a fim de enfatizar o mesmo sentido. As revelações não foram apenas muitas, mas também variadas. O autor, portanto, enfatiza as várias e muitas formas do falar e agir de Deus (conforme o AT através da palavra, criação, anjos, visões, falas, fatos, eventos, ocasiões, entre outras inúmeras formas). Nesse contexto da comunidade, é importante enfatizar que a revelação aos pais foi pelos profetas, pois esses eram inabaláveis em sua convicção e persistentes em sua mensagem, mesmo que perseguidos e maltratados (cf. Hb 11.33ss).

V. 2 – Após afirmar que no presente Deus fala através de seu Filho, o autor faz uma reflexão sobre a importância desse fato, descrevendo quem é o Filho. Inicia situando-o em relação à criação. O conceito que o autor tem do mundo concorda com aquele que é visto em todo o NT, em que concebe Deus como criador e Jesus Cristo como estando estritamente vinculado com ele no ato da criação. Essa concepção também aparece no v. 3 (Jesus sustentando todas as coisas), v. 7 (constituído sobre todas as obras), v. 8 (todas as coisas sujeitadas a ele), v. 10 (todas as coisas existem por sua causa). Nessa ideia, tudo remonta a Deus, que, por sua vez, constitui seu Filho como herdeiro de todas as coisas. Com isso o autor remete-nos a pensamentos profundos sobre a relação com a criação. Se Deus tem cuidados e zelos para com sua criação, também seu Filho, como herdeiro, tem o mesmo interesse.

V. 3 – Seguindo, o autor continua descrevendo o Filho, agora em sua relação com Deus. Ressalta que entre Pai e Filho há idoneidade e identidade. O Filho é o reflexo da glória do Pai. A unidade entre Pai e Filho é evidenciada na afirmação “e a expressa imagem da sua pessoa”; significa o mesmo que o Evangelho de João expressa com “Eu e o Pai somos um”.

Como imagem de Deus, o Filho, num primeiro momento, é associado ao Criador. Na expressão “sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder”, o Filho é visto no centro da estabilidade do universo. Ele mantém a existência do mundo criado (Cl 1.17). Significa que Jesus não deixa o mundo cair no caos. A palavra lembra a maneira como o mundo foi criado e a ideia de João 1.1-3 de que todas as coisas foram feitas pela Palavra (logos). A palavra poderosa do Filho é a mesma palavra criadora de Deus, que sustenta a criação. Num segundo momento, o Filho como imagem de Deus é associado ao Jesus encarnado. A expressão “a purificação dos pecados” faz referência à morte expiatória de Jesus e ao ato sacerdotal que purifica pecados. O Filho derrama o próprio sangue e oferece sua vida em favor de seu povo para purificação de pecados. O caminho de Jesus no mundo culmina na cruz como obra de salvação do mundo. O versículo indica também a ascensão do Filho numa posição de honra e autoridade.

V. 4 – A partir deste versículo, o texto trata do tema da superioridade do Filho em relação aos anjos. O tema é expressivo, e isso demonstra que anjos representam figuras importantes para o autor e para a comunidade. Anjos são seres que faziam parte do universo e do cotidiano das pessoas. No AT, Deus, em muitos momentos, revelava-se e comunicava-se com o povo através de anjos. Em algumas tradições judaicas, eles eram mediadores da antiga aliança e, em outras, eram responsáveis por realidades da criação como ventos ou labaredas. Nesse contexto, o autor afirma a superioridade de Jesus em relação aos anjos.

2.5-12 – Depois de tratar da exaltação do Filho em relação aos anjos, o autor expõe as razões pelas quais a obra de Jesus é mais importante e decisiva do que aquela realizada pelos anjos. Pode parecer contraditório, mas a glória que se reconhece em Jesus vem do fato de que “ele experimentou a morte em favor de todos” (v. 9). Jesus solidarizou-se com a humanidade até o extremo de provar a morte na cruz por todos. Essa solidariedade faz com que Jesus considere e assuma as pessoas, os filhos e filhas de Deus como irmãs e irmãos. Por termos sido feitos filhas e filhos de Deus e irmãs e irmãos de Jesus é que podemos testemunhar o seu nome e seus feitos.

3. Meditação

É uma mensagem de ânimo para uma comunidade que vive uma situação de dificuldades e desânimo. Comunidades enfraquecidas, que vivem experiências de sofrimento e ameaçadas de renunciar à fé em Jesus Cristo, continuam existindo e necessitam de atenção. A elas tem que chegar a mensagem de que Deus continua revelando-se na história e no mundo; que em seus cuidados, desvelos e providência Deus se achega para dar novo ânimo; que, em Cristo, Deus revela-se integralmente como um Deus Conosco.

A partir do estudo do texto são destacados três pontos de reflexão e meditação: a revelação de Deus; a solidariedade de Jesus e a criação de Deus.

A revelação de Deus: A mensagem central é a revelação de Deus. Deus manifesta-se e fala a seu povo. E sua ação na história acontece de forma contínua e de muitas e variadas maneiras. O autor, ao reconhecer a diversidade, valoriza a comunicação de Deus com o povo no transcurso da história.

E essa comunicação diversificada e constante demonstra o amor de Deus, que insiste em criar e estabelecer formas de se aproximar do ser humano e envolver-se com sua vida e sua história. Esse amor é persistente e contínuo e não lhe permite abandonar ou desistir do ser humano. Ele estabelece alianças e renova-as quando descumpridas. Em Jesus, Deus mesmo entrega-se nas mãos humanas e com isso está radicalmente comprometido com seu povo. Em Jesus, encontramos tudo sobre a ação de Deus neste mundo. Em Jesus, Deus mostra-se por inteiro. Todo agir de Deus neste mundo – criação, revelação e redenção – encontra sua expressão definitiva em seu Filho: Jesus Cristo.

E, hoje, pelo Espírito Santo, que testemunha Jesus, Deus continua envolvendo-se na história humana e intensificando sua ação em direção ao novo céu e à nova terra.

A solidariedade de Jesus: O texto apresenta uma importante reflexão sobre o lugar privilegiado da revelação de Deus através do Filho. Essa superioridade do Filho é devido ao fato de Jesus tornar-se solidário com a humanidade, encarnando-se e enfrentando sofrimento e morte na cruz para que tivesse a plenitude de vida.

Encarnando-se, Jesus torna-se irmão solidário das pessoas e assume total- mente sua condição e suas questões. Enfrentando a cruz, torna-se solidário com as pessoas quando passam por situações de cruz e morte. Solidário, ofereceu a si mesmo para perdão de pecados. Agora os seus e as suas podem colocar-se a ser- viço, em favor das pessoas necessitadas. Em alegria testemunham a solidariedade com que foram agraciados.

Esse foi o testemunho da comunidade da qual fala nosso texto. Por causa da solidariedade para com pessoas desvalidas, sofria humilhações e o desprestígio na sociedade. A mensagem incentiva não abandonar o testemunho e os valores do evangelho. Exorta que seguir Jesus exige romper com modos de pensar e agir muito comuns, mas que não conduzem à solidariedade. Seguir Jesus não traz necessariamente euforia, mas perseguição e dor. E, nesse sentido, o texto é atual e precisa ser reafirmado. Não se pode abrir mão da solidariedade em nome de qualquer facilidade que se ofereça, não se pode abandonar a confiança e a fé em Jesus por conta dos riscos que se possa enfrentar.

Relação com a criação: Uma reflexão profunda que aparece no decorrer do texto e nas demais leituras do domingo é a vinculação de Jesus com a criação. No tempo atual, em que presenciamos os maus-tratos e a exploração em relação à criação de Deus, é propício evidenciar a concepção de que Cristo está vinculado com Deus no ato da criação; ressaltar que, pela palavra do seu poder, ele sustenta todas as coisas; ressaltar que Deus constitui seu Filho como herdeiro de todas as coisas. Isso nos remete a pensamentos profundos sobre a relação com a criação. Se Deus tem cuidados e zelos para com sua criação, também seu Filho como herdeiro tem o mesmo interesse por essa criação. É consolador saber que a causa de Jesus neste mundo também tem a ver com os cuidados e zelos para com a criação. A causa de Jesus em relação à criação necessita ser assumida, testemunhada e vivenciada. Toda a criação geme com dores, esperando por redenção (Rm 8.18ss). Dessa forma, em nosso testemunho é urgente vivenciar e anunciar uma nova forma de relacionamento com a natureza, que envolva justiça e respeito. É urgente instaurar uma convivência fraterna e solidária com toda a criação. É urgente assumir a missão de cooperar com a criação.

4. Imagens para a prédica

Há várias possibilidades de encaminhar a prédica a partir do texto. Cada um dos três itens enumerados na meditação pode ser um tema. O importante é identificar quais são as dificuldades e as situações de sofrimento da comunidade.

O que faz com que as pessoas abandonem o convívio em comunidade? Quais são as situações que clamam por solidariedade e envolvimento? A sugestão é incluir a criação de Deus que carece e clama por solidariedade.

Bibliografia

LOHSE, Eduard. Introdução ao Novo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 1972.

VASCONCELLOS, Pedro Lima. Como ler a Carta aos Hebreus: Um sacerdote fiel a um povo a caminho. São Paulo: Paulus, 2003.


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