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Prédica: Marcos 1.1-8
Leituras:Isaías 40.1-11 e 2 Pedro 3.8-15a
Autor: Samuel Gaussmann
Data Litúrgica: 2º Domingo de Advento
Data da Pregação: 07/12/2014
Proclamar Libertação – Volume: XXXIX

Preparação constante do amor confiante

1. Introdução: Prepare-se!

Isaías 40 remete ao exílio babilônico. O profeta é enviado por Deus para anunciar “ao coração de Jerusalém” que a “consolação” do Senhor está próxima (v.1-2). “Falar ao coração” sugere a relação de amor entre Deus e seu povo. Para expressar essa mensagem são usadas duas imagens. A primeira é uma imagem ligada ao universo militar: o tempo de serviço que o povo foi obrigado a cumprir já terminou. A segunda é ligada ao universo cultual: o castigo que o povo sofreu foi aceito pelo Senhor como se fosse uma forma de sacrifício de expiação. É apresentada ainda uma misteriosa voz do deserto, que convida a “preparar o caminho do Senhor”, palavra retomada pelo evangelista Marcos.

O trecho de 2 Pedro apresenta uma reflexão sobre o “Dia do Senhor” (v. 1-10) e uma exortação aos cristãos para levar uma vida santa (v. 11-18). Os cristãos dos primeiros tempos estavam convencidos da iminência da volta de Cristo. No entanto, o tempo passava e isso não acontecia. O autor explica que Deus não depende do tempo como nós, que vivemos na história, e que Deus pretende prorrogar o tempo para oportunizar a todos acolherem a salvação que ele oferece. A segunda vinda de Jesus será algo inesperado e surpreendente, e os crentes devem esperar preparados e vigilantes.

A temática da preparação e vigilância é comum aos três textos. Marcos destaca o agir de Deus: ele fala pelos profetas, prepara através de João Batista, revela-se em Jesus Cristo e batiza no Espírito Santo. Advento é Deus que vem! E nós? Estamos atentos? Preparados?

2. Exegese: O porquê da preparação

Marcos inicia seu evangelho afirmando: “Princípio da boa-nova de Jesus Cristo, Filho de Deus”. E no final, na hora em que Jesus morre, ele afirma de novo: “Verdadeiramente, este homem era o Filho de Deus” (Mc 15.39). No começo e no fim de sua obra está a afirmação de que Jesus é o Filho de Deus. Essa afirmação expressa o que a primeira comunidade cristã respondeu à pergunta sobre quem é Jesus. A exemplo de Gênesis (Gn 1.1) e do Evangelho de João (Jo 1.1), também Marcos inicia com a expressão “princípio”, revelando que irá tratar do Deus que age, que cria o inexistente, que faz acontecer desde o início.

O ponto de referência para sua narração é o Antigo Testamento, especialmente o Êxodo. Esse enfoque corresponde ao significado da morte de Jesus, na qual ele derramou o sangue da nova aliança. De maneira semelhante a Moisés, Jesus chamou para si o povo de Deus, demonstrando sua autoridade através de milagres e sinais, e outorgou seu ensinamento como o “novo mandamento” da nova aliança.

“Eis aí envio diante da tua face o meu mensageiro, o qual preparará o teu caminho.” Essa passagem é de Malaquias 3.1. Naquela época, o serviço do Templo era desempenhado sem entusiasmo. As oferendas sacrificiais eram animais defeituosos e de segunda qualidade. O mensageiro viria para purificar a adoração do Templo antes que o Ungido de Deus aparecesse sobre a terra. Nesse sentido, a vinda de Cristo seria uma purificação da vida. “Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas.” Essa passagem é de Is 40.3. Marcos fez uso de citações de Malaquias e Isaías para salientar que João Batista fazia parte, já nas profecias, da história salvífica de Deus como precursor de Jesus, que é, de fato, o Messias, o Ungido de Deus.

A pregação de João Batista no deserto lembra a Israel, simbolicamente, as suas origens na aliança celebrada no Êxodo. O deserto é o lugar das revelações divinas, como a sarça ardente (Êx 3) e os Dez Mandamentos (Êx 20). Foi na travessia do deserto que Israel aprendeu a conhecer e a confiar em Deus. Marcos usa frequentemente hipérboles (recurso literário que exagera) em expressões como no v. 5: “toda a província da Judeia” e “todos os habitantes de Jerusalém”, para sublinhar o avanço e a abrangência do evangelho.

Nos dias de João Batista, o povo israelita havia perdido sua liberdade política para o Império Romano e não havia nenhuma perspectiva de recuperá-la a curto prazo. Internamente, o povo estava dividido em diversos grupos, como, por exemplo, fariseus, zelotes e saduceus. É para esse contexto de crise que João Batista fala. E a palavra com a qual ele anuncia a chegada de Deus é arrependimento. A palavra grega (metanoia) traduzida aqui por arrependimento significa mudar de atitude, mudar a direção da vida, converter-se a Deus. Esse arrependimento é uma mudança de rumo na vida da pessoa em todas as suas dimensões. As pessoas que se sentiam tocadas por esse chamado deixavam-se batizar. Por meio das associações com o dilúvio nos dias de Noé e a derrota dos egípcios no Mar Vermelho, o batismo de João também lembrava ao povo que o pecado merece um castigo e o arrependimento é o início de uma nova caminhada.

João veio anunciando o batismo de arrependimento. O judeu conhecia muito bem os lavamentos rituais (Lv 11-15). Quando um gentio convertia-se ao judaísmo, devia cumprir três coisas: em primeiro lugar, devia circuncidar-se porque esse era o sinal do povo da aliança; em segundo lugar, devia oferecer um sacrifício porque, como pagão, necessitava expiação, e somente o sangue derramado podia expiar o pecado; em terceiro lugar, devia batizar-se, ação que simbolizava a purificação de toda a impureza de sua vida anterior. O mais surpreendente do batismo de João era que ele, um judeu, pedia aos judeus que se submetessem a esse ritual, deixando claro que ser judeu no sentido racial não significava, necessariamente, pertencer ao povo escolhido de Deus; não era a vida judia, mas a vida puricada que agradava a Deus.

Há continuidade entre o batismo de João e o batismo instituído por Jesus (Mt 28.19). Ambos eram símbolos de purificação e visavam à remissão de peca- dos. Porém não eram idênticos. Os que foram batizados por João necessitavam também do batismo cristão (At 19.5). O batismo cristão é um sinal de iniciação que indica o relacionamento com Cristo; o batismo de João foi um rito de preparação para a vinda de Cristo. João anunciava a espera, Jesus o cumprimento.
João era um homem que vivia sua mensagem. Três aspectos marcavam a realidade de seu protesto: 1. O lugar onde vivia: deserto; 2. Suas roupas: Elias tinha usado roupa semelhante (2Rs 1.8); 3. Sua alimentação: gafanhotos e mel silvestre. Ambas as palavras são alvos de diferentes interpretações na pesquisa bíblica, mas é consenso que significam uma dieta simples.

Tirar as sandálias do caminhante era trabalho que correspondia ao escravo. João não se considerava digno de servir o Mestre nem mesmo na qualidade de escravo, entendendo-se como apenas um canal de ligação ao Filho de Deus. Nesse sentido, G. J. Jeffrey, um famoso pregador, usava o seguinte exemplo: Quando fazemos uma chamada telefônica de longa distância e demora, o operador nos dirá: “Estou tentando conectá-lo”. Quando conseguiu a conexão, o operador desaparece e nos deixa em contato direto com a pessoa com quem queríamos falar. O propósito de João Batista não era ocupar ele mesmo o centro das atenções, mas conectar as pessoas com Jesus Cristo.

3. Meditação: A preparação que comove e move…

O quanto somos prevenidos e vigilantes em nosso dia a dia? Você costuma levar guarda-chuva diante das primeiras ameaças de chuva ou é daqueles que geralmente tomam banho de chuva ou precisam pedir emprestado um guarda-chuva? Os textos bíblicos do 2° Domingo de Advento falam da vigilância e da preparação.

O 2º Domingo de Advento faz-nos refletir também sobre as segundas chamadas na vida. A segunda chamada no vestibular ou em concursos representa uma nova chance para quem não atingiu a meta. Na vida escolar, a recuperação é uma segunda chance para quem não foi bem na prova. O segundo turno de uma eleição é oportunidade de analisar melhor os candidatos. Em reuniões e assembleias vale a segunda chamada/convocação. Nunca presenciei uma reunião em nossas comunidades da IECLB iniciar na primeira chamada. Quantas “chamadas” Deus precisa fazer para lhe obedecermos e o levarmos a sério? No Advento, Deus faz-nos quatro chamadas, e ainda tem gente que chega no Natal despreparada, estressada, desapercebida dos sinais…

João Batista afirma claramente que preparar a vinda do Messias passa pela metanoia, isto é, pela transformação total do ser humano. Preparar a vinda de Jesus exige de nós uma transformação radical em nossa vida. Arrepender-se é confessar e abandonar o pecado, é não se apegar mais à ideia de que se é justo simplesmente por ser descendente de Abraão ou fazer parte de uma igreja, mas é produzir frutos de uma vida que corresponda ao arrependimento. O Advento gera comoção, mas qual a ação que permanece depois? Ao fazermos uma conversão no trânsito, devemos antes sinalizar essa intenção com o pisca-alerta. No Advento, as comunidades estão com vários pisca-alertas ligados, reflexivas e emotivas, mas, infelizmente, fica só no piscar e não há ação concreta através de uma mudança de direção. É como o automóvel que liga o pisca-alerta e não muda de direção. Saímos transformados, convertidos para uma real mudança após ouvir o chamado de João Batista? À semelhança dos pisca-piscas dos pinheirinhos, nosso pisca-alerta do batismo vai piscar enquanto a decoração natalina estiver exposta e depois tudo volta como era antes, sem mudar de direção, sem frutos de arrependimento?

A imagem do deserto destaca que mais do que um determinado lugar, ele indica uma profunda experiência com Deus. Nesse sentido, o 2º Domingo de Advento torna-se um “estar com João no deserto”. O Advento pode ser comparado a uma caminhada com quatro estações (quatro domingos), e a segunda passa pelo deserto. E depois de passar pelo deserto, não saímos mais os mesmos, mudamos o ritmo e a maneira de caminhar. Advento é oportunidade de dar maior liberdade a Deus para agir em nós, abrindo espaços, alargando o coração, endireitando caminhos, abrindo fronteiras.

O segundo domingo de dezembro é também o Dia da Bíblia para as igrejas oriundas da Reforma religiosa do século XVI. É oportunidade de destacar a Bíblia como o manual para nossa preparação e vigilância na vida de fé. Para usarmos corretamente um eletrodoméstico, precisamos conhecer seu manual de instrução. Para vivermos coerente e fervorosamente a fé, precisamos continuamente consultar a palavra de Deus.

O que significa estar vigilante e preparado? Viver uma vida de acordo com a vocação recebida desde o Batismo, ou seja, uma vida santa, de serviço a Deus. A demora na segunda vinda de Jesus não é pretexto para esmorecer na preparação ou desistir de esperar e agir. A questão não é quando será, mas como você está se preparando para tal. É a esperança que torna a espera algo produtivo, pois, se o amor é confiante, a preparação será constante!

4. Imagens para a prédica: Motivando para a preparação

A luz

Uma vela ainda não é luz. Ela pode tornar-se luz. Só falta acendê-la. Com o fogo. Bem, assim é com as pessoas. De monte existem pessoas-vela. Mas há pouquíssimas pessoas-luz. Pessoas-vela receberam educação cristã, fazem parte de uma comunidade cristã. Mandam seus filhos para o Culto Infantil e para o Ensino Confirmatório. Defendem os valores da fé cristã. Cantam hinos religiosos no Natal. Mas ficam nisto: no Menino Jesus que dorme. Não se deram conta de que esse Menino Jesus cresceu e pregou: “Vim para lançar fogo sobre a terra e bem quisesse que ela já estivesse a arder”. Pois é. Assim é com as pessoas-vela. Tudo bem com elas. Todas elas são gente boa! Só falta o fogo… O fogo do amor! O fogo da determinação! O santo fogo do Espírito Santo! Pois só esse fogo do Espírito Santo faz de pessoas-vela pessoas-luz, fazendo com que ardam em fé, esperança e amor. Na escuridão, a vela mais bonita não serve para nada se não estiver acesa. Porém a luz mais insignificante atrai, orienta, ilumina e espalha calor e aconchego. Imprescindível é o nosso relacionamento com Cristo, que é a luz do mundo. Somente quando ele arde e brilha dentro de nós, tornamo-nos pessoas-luz. E é essa a nossa tarefa: ser luz do mundo! Só uma vela acesa pode acender outras velas. (Sugestão: Distribuir velas entre todas as pessoas e, durante a leitura, deixar uma vela vermelha acesa. No inal, a partir da vela vermelha, cada qual pode acender outras velas assim que a sua for acesa também.)

5. Subsídios litúrgicos: Celebrando a preparação

Velas de Advento

Pode-se acender a segunda vela da Coroa de Advento ou usar quatro velas de cores diferentes para assinalar o específico de cada domingo: a primeira vela é roxa, porque indica o tempo de penitência e conversão pela segunda vinda de Cristo; a segunda vela é vermelha, pois está relacionada ao testemunho de João Batista e lembra o sangue do Cordeiro de Deus; a terceira vela é rosa, pois esse domingo é também chamado Gaudate (Alegrai-vos), sinal da alegria pela vinda do Salvador; a quarta vela é branca, relacionada a Maria, que dará à luz um ilho e representa Jesus já presente, mas ainda oculto no ventre materno.

Simbologia para a confissão de pecados e anúncio da graça: Uma jarra cheia de água que ficará na pia batismal e vários copos transparentes vazios no altar ou em outro lugar visível. Vivemos uma vida vazia de sentido sem a fé. Cada copo vazio representará um aspecto da vida em que não agimos de acordo com a fé (profissão, comunidade, família, política etc.). Após as preces, destacar que no Batismo fomos preenchidos pelo Espírito Santo para uma vida com abundância. Buscar a jarra na pia batismal e encher os copos vazios.

Destacar o Batismo. Se não houver batismos agendados, procurar fazer uma rememoração do Batismo à luz do Advento. Há várias sugestões no Livro de Batismo da IECLB.

Bibliografia

MESTERS, Carlos; OROFINO, Francisco. O Evangelho de Marcos: Um roteiro de viagem tendo Jesus como guia. Série: A Palavra na Vida, nº 290. São Leopoldo: CEBI, 2012.
WESTPHAL, Hugo Solano. Círculos Bíblicos: O Evangelho segundo Marcos – fascículo 1. Blumenau: Sínodo Vale do Itajaí – IECLB, 2008. p. 13-26.


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