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Prédica: 1 João 1. (1-4) 5 – 2.2
Leituras: Atos 4.8-12 e Lucas 24.36-49
Autor: Odemir Simon
Data Litúrgica: 3º. Domingo da Páscoa
Data da Pregação: 13/04/1997
Proclamar Libertação – Volume: XXII

1. Introdução

O texto para pregação deste 3a Domingo da Páscoa é l Jo 1.(1-4)5-2.2. Os vv. 1-4, colocados entre parênteses, não precisam necessariamente fazer parte do texto da pregação. Contudo, os referidos versículos abordam uma temática importante: a origem da mensagem que passa a ser anunciada. O autor da Epístola defende, nesses versículos, a legitimidade da mensagem por ele proclamada. Além disso, eles permitem estabelecer uma ponte com as outras leituras indicadas para o domingo. Por isso, julgamos conveniente incluí-los na leitura do texto. O tema abordado nos vv. 1-4 justificaria uma perícope à parte.

2. O Caráter da Epístola

O pano de fundo da 1a Epístola de João é a controvérsia com os hereges. Esse fato confere à mesma um caráter polêmico. Seu autor enumera as heresias difundidas por seus oponentes e as refuta uma a uma. Ao mesmo tempo ele imprime a seu escrito um caráter pastoral. Como defende Bultmann, trata-se de um escrito exortativo dirigido a um círculo de comunidades que precisava ser advertido do perigo representado pelas heresias e instado à fidelidade aos man-damentos (Lohse, p. 198). O autor anima, encoraja e orienta a comunidade. João está preocupado com seus filhinhos e quer defendê-los das falsas doutrinas dos hereges. Seu objetivo é mantê-los firmes na comunhão com Deus e de uns com os outros.

3. A Perícope e as Leituras

Acompanham o texto de pregação as leituras de Lc 24.36-49 e At 4.8-12. A leitura do Evangelho enfatiza a concreticidade do evento da ressurreição. Jesus aparece aos discípulos. Ele próprio os convida: Apalpai-me. Os discípulos são convidados a olhar para Jesus, a tocá-lo, a sentir seu corpo. O convite de Jesus para que o toquem lembra imediatamente l Jo 1.1. A leitura de Atos dá ênfase ao testemunho que é também abordado no texto de Lucas e na Epístola. Existem grandes afinidades entre os textos propostos para o dia.

4. Meditando com o Texto

4.1. Com os Próprios Olhos

A primeira observação digna de nota refere-se à reivindicação do autor de que ele seria uma testemunha ocular do Verbo da Vida. As expressões usadas são contundentes: (…) o que temos ouvido, o que temos visto com nossos próprios olhos, (…) e as nossas mãos apalparam (…). Esse ouvir, ver e apalpar é usado pelo autor para assegurar a pureza e dar credibilidade à mensagem que é por ele anunciada. Essa reivindicação poderia sugerir que ele esteve entre os discípulos que foram convidados por Jesus: Apalpai-me.

Tanto Lucas como a Epístola, ao se referirem à manifestação do Verbo da Vida aos três sentidos (audição, visão e tato), advogam em favor da concreticidade da revelação como fato histórico. Com isto o autor está dizendo: o que passo a dizer não é criação minha, não é fruto da minha imaginação, mas fruto do discipulado, do seguimento. É isso que ele quer transmitir, e não doutrina humana. João fundamenta a legitimidade de sua pregação na experiência concreta e histórica que fez com o Verbo da Vida. Esse fato o coloca em ligeira vantagem com relação à nossa atuação como pregadores/as. Nós não podemos lançar mão desse tipo de argumento. Contudo, temos uma nuvem de testemunhas a nos rodear, e seu testemunho fortalece nossa pregação.

4.2. Deus É Luz

Nos vv. 5-7 o autor passa a descrever a comunhão com Deus como um andar na luz. Inicialmente, lembra mais uma vez que a mensagem anunciada é a mesma que ele ouviu. Essa mensagem diz que Deus é luz, assim como Deus é amor (4.8). A tensão entre luz e trevas pode ser verificada já nos primeiros versículos da Bíblia. A primeira obra de Deus como criador já se insere nesta tensão. Disse Deus: Haja luz; e houve luz E viu Deus que a luz era boa; e fez separação entre a luz e as trevas (Gn l.3s.). A luz é boa, mas o mesmo não se diz das trevas. As trevas afastam de Deus, representam a oposição a ele. As trevas impedem a manifestação das maravilhas de Deus (SI 88.11), elas são símbolo da própria morte. Por isso, quem afirma ler comunhão com Deus, mas anda nas trevas, é mentiroso. Assim, também quem diz estar na luz, mas odeia a seu irmão/ã, ainda anda nas trevas (2.9). Igualmente, quem diz amar a Deus, e odeia a seu irmão/ã, é mentiroso (4.20).

A comunhão com Deus não existe se não se tornar visível na comunhão entre os/as irmãos/as. A pretensa comunhão com Deus é desmascarada pelo andar, pela forma de viver e de agir. O estar na luz, a comunhão com Deus se verifica em questões práticas, na forma de relacionamento com as pessoas. O andar na luz confirma a comunhão com Deus. A verdadeira comunhão com Deus alcança a todos que estão à nossa volta. Os filhos da luz devem andar como filhos da luz. Andar na luz implica produzir frutos dignos desta realidade. O fruto da luz consiste em bondade, justiça e verdade (Ef 5.8s.). Andar na luz é uma expressão metafórica para designar a vida vivida no relacionamento com Deus. É no combate às trevas e suas obras que a comunhão com Deus, andar na luz, se revela como autêntica. A comunhão com Deus tem que passar pela prova da comunhão de uns com os outros. É na comunhão de uns com os outros que a comunhão com Deus adquire seu contorno prático. É ali que ela se torna historicamente verificável e relevante.

A verdadeira comunhão com Deus, que vai além das aparências, não faz acepção de pessoas. É de extremo perigo para a comunhão cristã todo princípio seletivo e a consequente separação (…) Esta seleção pode até significar a exclusão de Cristo que bate à porta na forma do irmão pobre, quando se exclui de uma comunhão de vida o fraco e o desprezível, o aparentemente inútil (Bonhoeffer, p. 22). Comunhão cristã não pode ser apenas um ideal, não se limita a uma suposta comunhão espiritual. A verdadeira comunhão cristã anseia por tornar-se concreta na vivência diária de cada cristão.

4.3. Somos Réus, mas Temos Advogado

Nos vv. 4.8-2.2 João analisa nossa situação em face do pecado. Não há como esconder a realidade dos fatos: ninguém jamais poderá afirmar que não cometeu pecado. Paulo coloca com extrema clareza essa verdade quando diz: pois todos pecaram e carecem da glória de Deus (Rm 3.23). Quem se considera sem pecado, a si mesmo tenta enganar, age como o fariseu (Lc 18.9-14). Há somente um que é sem pecado, Jesus Cristo; diz-se que ele em tudo se tornou semelhante a nós, exceto no pecado (Hb 4.15). Como vemos, não é possível tapar o sol com a peneira. A única alternativa que nos resta é confessarmos os nossos pecados e confiarmos em nosso Advogado. Não precisamos viver atormentados pelo pecado, podemos confessá-lo. Tiago também nos encoraja a isso: Confessai, pois, os pecados uns aos outros… (Tg 5.16). A única diferença entre o cristão e as demais pessoas é que o cristão é um pecador arrependido. Uma oração de Lutero nos poderá ajudar a compreender melhor esse ponto: Ajuda, querido Senhor e Salvador, a permanecermos pecadores piedosos e não nos tornarmos santos blasfemadores. A verdadeira piedade está em reconhecer-se como pecador e não na reivindicação de uma suposta santidade, pois quem pretende ser santo está blasfemando.

O cristão não está livre do pecado. João também sabe que seus filhinhos não estão livres do pecado. A própria comunidade não está livre do pecado, ela pode ser seduzida por falsas doutrinas e enganada por lobos disfarçados de cordeiros. O objetivo de João ao transmitir essa mensagem à comunidade é evitar que seus membros venham a pecar. Trata-se de um apelo, de uma exortação para que se afastem do pecado. Não estamos livres do pecado, mas devemos resistir a ele. Contudo, se alguém pecar (como diariamente acontece com todos), não é necessário cair em desespero, pois temos junto ao Pai um Advogado que nos defende, Jesus Cristo, o justo. O pecado representa uma ruptura da comunhão com Deus e com o próximo, mas esta é restabelecida pela propiciação oferecida por Cristo.

5. O Texto e Nós

Tenho ouvido por parte de algumas pessoas que a Igreja está muito frouxa. Não se fala mais em pecado, parece que tudo é permitido. Quer-me parecer que essas pessoas esperam que a Igreja lhes ofereça uma orientação para sua vida diária, onde procuram viver os ensinamentos evangélicos. Talvez isso tenha algo a ver com o fato de que somente o pecador consciente de seu pecado é que pode sentir a verdadeira alegria e consolação que representa o perdão dos pecados anunciado em nome de Cristo. Por outro lado, ouvimos sermões e pregações que em tudo vêem pecado e assim oprimem e submetem seus fiéis, privando-os da mensagem libertadora do evangelho. Ainda outros induzem as pessoas a viverem numa suposta santidade, o que atormenta a alma.

Sem dúvida, o tema principal da perícope refere-se à comunhão (koinonia). A comunhão com Deus pressupõe a comunhão entre os irmãos e irmãs. Sem esta comunhão não existe comunhão com Deus, pois esta não pode ser entendida em termos meramente místicos ou espirituais. A comunhão não é seletiva. Em nossa situação a comunhão aparece como uma crítica à globalização, pois globalização não é comunhão.

A tensão entre luz e trevas está também presente em nossos dias. As trevas estendem sua sombra tenebrosa sobre a vida de milhares de pessoas. Elas surgem sob a forma de falta de assistência médica, no salário de fome. O Plano Real, que foi apresentado como a única alternativa, como a luz a brilhar no fundo do túnel, revela já sua face macabra, tudo em nome da estabilidade da moeda.

6. Pistas para a Pregação

O texto é rico em conteúdos a serem explorados na pregação. O contexto do/a pregador/a e de sua comunidade é que determinará a ênfase a ser dada. Uma possibilidade a partir do texto é desafiar a comunidade para que avalie a sua comunhão. Como está a comunhão dos santos (Credo Apostólico, 3º. artigo)? Como sentimos e experimentamos a comunhão em nossa comunidade? Nossa comunhão alcança também aqueles/as que estão afastados/as e procura integrá-los/as?

O texto oferece também a possibilidade de abordarmos nossa condição de simultaneamente justos e pecadores (simul iusti et peccatores). Ligado a esse aspecto, poderia-se resgatar a prática da penitência ou confissão dos pecados, tão importante para Lutero. Neste caso, não se deve esquecer da absolvição que tanto consolo traz ao pecador. A absolvição é o evangelho que se dirige de forma bem pessoal e particular ao pecador.

7. Subsídios Litúrgicos

Sugestão de hinos: Hinos do Povo de Deus, na 165, 195.

Confissão de pecados: Misericordioso e onipotente Deus. Abatidos e sobrecarregados por nossos pecados nos aproximamos de ti. Santo Deus, tu enviaste a teu Filho Jesus Cristo como luz para o mundo; perdoa-nos se nos afastamos dessa luz e preferimos seguir pelo caminho das trevas de nosso egoísmo, de nossa falta de amor. Perdoa-nos, Senhor, se não cumprimos o teu mandamento de sermos luz para o mundo. Perdoa-nos quando nos afastamos de ti, quando vivemos uma comunhão de aparências. Senhor Jesus Cristo, tu és nosso Advogado junto ao Pai. Por isso te suplicamos: tem piedade de nós, Senhor.

Absolvição: Jesus Cristo diz: Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará nas trevas, pelo contrário, terá a luz da vida.

Oração de coleta: Santo e eterno Deus, tu és a nossa luz, na tua luz vemos a luz. Faze resplandecer em nossas vidas tua luz e tua verdade para que nos guiem em meio às trevas deste mundo. Aos perdidos ajuda-os a encontrar novamente o caminho da luz e da vida. Protege tua comunidade e guarda-a do poder das trevas e do mal. Concede-nos que possamos permanecer firmes em tua comunhão. Fortalece nossa comunhão com os/as irmãos/ãs. Por Jesus Cristo, que contigo e o Espírito Santo vive e reina de eternidade a eternidade. Amém.

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