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A REALIDADE DO NOVO DIA
Mateus 9.36-38 

12 de Maio de 1968 (Cantate), Consulta Luterana Latino-Americana em Caracas, Venezuela, Culto de Abertura1

Estando nestes dias aqui reunidos para estudarmos a responsabilidade social da Igreja, lembramo-nos que esta Igreja tem Jesus Cristo como Senhor, e que em seu nome estamos reunidos. E dele nos é dito que, vendo as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor. E ouvindo essas palavras pensamos nas multidões do nosso continente e perguntamo-nos pela nossa corresponsabilidade pela situação atual, por ser também o nosso povo na América Latina aflito e exausto como ovelhas que não têm pastor. Não nos podemos esquivar da nossa culpa, alegando que se trata de um continente católico. Trata-se de nossa tarefa, e a pergunta é dirigida a nós, o que temos, feito pelas multidões para o encontro desse continente com Cristo. Somos perguntados pela nossa obediência e pela nossa prece, para que Deus envie trabalhadores para a sua seara, e pela nossa própria disposição de nos deixarmos enviar por Deus como trabalhadores por Ele autorizados. 

Certamente, neste continente somos uma pequena minoria. E faz parte de nossa obediência vermos com todo o realismo a nossa situação e não nos entregarmos a ilusões. Todavia, também Jesus era uma minoria, mas por nenhum momento se dispensou da missão que Deus lhe confiara enviando-o ao mundo. Ele não conquistou a maioria, e Ele não cristianizou o mundo. Mas Ele viveu para este mundo e para ele morreu. E desde então não importa como e o que o mundo é em si, mas tudo importa que lhe seja testificado que Cristo morreu por ele e que Cristo vive para ele. E a nossa tarefa aqui na América Latina não pode ser outra senão esta de proclamar este testemunho que Deus de tal maneira amou o mundo-que deu o seu Filho Unigênito (João 3.16).

Unicamente deste testemunho pode tratar-se ao perguntarmos pela responsabilidade social da Igreja. De nenhuma maneira trata-se aqui de uma segunda tarefa o lado do testemunho. A responsabilidade social só pode ser um aspecto da genuína, legítima responsabilidade da Igreja de dar testemunho do evangelho. Deparando com o que hoje é dito sobre a responsabilidade da Igreja diante da situação social, recebe-se a impressão de que já estamos novamente erguendo um evangelho social, para o qual as relações interumanas são tudo, esquecendo-se de que o centro do evangelho é Deus que estava em Cristo, reconciliando o mundo consigo mesmo; é Deus que de tal maneira amou o mundo. 

Seria desobediência, se falássemos de uma responsabilidade social da Igreja que não derivasse do testemunho central do evangelho. Deus ama o homem de tal maneira que Ele mesmo se torna homem em Cristo. Por isso a Igreja, por lhe ser confiado o testemunho deste amor de Deus ao homem, não pode deixar de interessar-se pelo homem, de saber-se responsável por ele em todas as suas relações de sua existência humana. Tudo, porém, o que fizer no desempenho de sua responsabilidade pelo homem, só será _legitimo, se for a resposta daqueles que ouviram e aceitaram o evangelho do amor de Deus em Cristo, resposta, por meio da qual em atos concretos e visíveis dão testemunho ao mundo do que em Cristo nos foi dado.

Não há, pois, evangelho social; há um único evangelho, o evangelho de Jesus Cristo. Mas este evangelho de Jesus Cristo mesmo, além do qual não há outro, é eminentemente social. Porque o próprio evangelho nos diz que não podemos ter Cristo somente para nós mesmos; quem só quisesse salvar a sua própria alma, já a teria perdido; e quem quer Cristo somente para si, ainda não o conheceu; só podemos tê-lo como Cristo também para o outro, para todos: porque Deus ama o mundo; Ele quer que todos sejam salvos. Por isso o outro só nos pode ser o homem amado por Deus, o homem, em resgate do qual Cristo deu a sua vida. Cristo, solidarizando-se com o homem inteiramente, mostra-nos o outro como irmão. É Cristo mesmo, quem nos espera por detrás do semblante do irmão, e isso quer dizer em primeiro lugar: do irmão que sofre, que é oprimido, que necessita de alguém que lhe seja irmão, e do qual Cristo disse: O que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim é que o fizestes. (Mt 25.40).
De tanta importância é para Cristo o outro, o necessitado, que Cristo se identifica com ele: O que a ele fizestes, a mim é que o fizestes. E com essa palavra nos diz o que lhe é importante e essencial: que haja misericórdia e solidariedade fraternal entre nós; que vejamos no outro, seja ele quem for, o semblante de Cristo, com o seu olhar sobre nós, esperando pela nossa resposta ao seu amor. 

Fala-se hoje muito das arcaicas estruturas sociais que devem ser transformadas. Com isso certamente todos concordamos. Mas, não sei se concordamos, se digo, que isso, certamente não é tarefa da Igreja. Mas de fato, ela não recebeu essa tarefa. A ordem é outra. A responsabilidade pelas estruturas políticas e sociais sem dúvida está com o estado. Mas está com a Igreja alertar as consciências responsáveis pelo testemunho claro evangelho da solidariedade cristã. Deve ser claro que essa solidariedade cristã não se pode limitar a uma esfera pessoal, privada, mas que ela exige uma atuação responsável também no terreno público, na ordem política e social. Talvez não tenha sido suficientemente claro que a prédica do evangelho de Cristo, ao lado do qual não há outro, tem também o seu aspecto político, e que é nossa responsabilidade dizermos aos políticos e estadistas que o essencial em toda a sua atuação, o centro é o homem e o convívio dos homens com aquela singular dignidade. Também o governo tem o seu mandato de Deus, sendo perante Ele responsável para manter a ordem e garantir as condições de uma vida humana digna em justiça e paz. Quem ouve o evangelho do amor de Deus ao homem não pode fazer uma política de desprezo ao homem, que ofende a dignidade da pessoa humana. Esse testemunho a Igreja deve também àqueles que são responsáveis pelas estruturas sociais, aos governadores e legisladores, aos políticos em geral. Aqui somos perguntados, se como Igreja estamos prontos e temos a coragem de dar esse testemunho de que o homem, qualquer homem, é de uma dignidade incomparável por ser o homem amado por Deus, o homem, do qual Cristo se tornou irmão. 

Tendo por Senhor Aquele que fará novas todas as cousas, a Igreja não resignará diante da realidade existente, mas examinará todas as possibilidades de melhorá-la, com toda a prudência e conhecimento de causa. Para alertar as consciências mostrará oportunidades concretas para ajudar aos seus membros políticos a assumir a sua responsabilidade cristã em todos os setores da vida humana. 

Mas com tudo que faz a Igreja será modesta e realista. Sabe que não lhe foi dada a promissão de transformar o mundo com nossa força e ação humanas, de vencer o sofrimento, a injustiça. Mas, sabe igualmente que já foi conquistada a vitória sobre todos os poderes do mal. Cristo venceu, dele é a vitória, dele é todo o poder. E Ele não deixou o mundo, pelo qual morreu e para o qual vive, entregue a si mesmo: o amor de Deus em Jesus Cristo é realidade neste mundo, e Cristo prometeu: Eis que eu faço novas todas as cousas (Ap 21.5), e nós somos chamados a ser suas testemunhas. 

E se a Igreja não tem uma, solução pronta para os múltiplos problemas sociais, contudo ela tem o grande mandamento, e ele nos autoriza e ordena a erguermos sinais em meio deste nosso mundo, da presença de Cristo, de seu reino, de seu amor — sinais que fazem transparecer na nossa escuridão um raio de luz da realidade do novo dia: do mundo de Cristo que faz novas todas as cousas e enxugará todas as lágrimas. 

Nota:

1 Publicada em espanhol, numa versão revisada, em: Federação Luterana Mundial (ed.): Responsabilidad Social Cristiana, Conferencia luterana sobre responsabilidad social cristiana en América Latina, Caracas, Venezuela, 11 ai 17 de Mayo de 1968, Buenos Aires, 1969, 19 — 26.

Veja:

Testemunho Evangélico na América Latina

Editora Sinodal

São Leopoldo – RS
 

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