Quarta-feira da Paixão 2011
Amadas e amados no Eterno!
Nesta madrugada, telefones em muitas residências tocaram. Muitas pessoas, talvez já adormecidas e repousando, abriram seus olhos e os voltaram de forma diferente para Porto Alegre. Nossa irmã Hulda, depois de um dia de muita luta na terça-feira da paixão, com febres que iam e vinham, já sem alimentar-se, faleceu pouco antes da meia noite.
O sepultamento da diaconisa foi protelado para a quinta-feira da paixão pela manhã, às 9h, para dar tempo aos familiares e amigos de mais longe virem até o sul e participarem da despedida e desse serviço de amor que será prestado por toda a comunidade ali reunida, na casa das irmãs, que era também o lar da S. Hulda – a Casa Matriz de Diaconisas.
Irmã Tatiana estava no hospital Moinhos de Vento ontem de noite, cuidando de seu esposo que está internado lá, recuperando-se no seu tempo pós-operatório. Irmã Tatiana ligou-me logo após a meia noite sobre o ocorrido.
A diaconisa Hulda estava sendo acompanhada no quarto, como a cada minuto, desta vez, não por uma diaconisa da sua irmandade, mas por uma irmã na fé, não ordenada, uma amiga, liderança de comunidade, com conhecimentos de enfermagem, uma pessoa que também carrega grandes marcas positivas em sua vida do convívio com diaconisas que atuavam em Brusque nos anos cinqüenta. Lá, Hanelore fez o curso de enfermagem, e ainda muitas vezes em sua vida, ela voltou à casa das diaconisas ou para realizar cursos ou para retiros, ou outros eventos da igreja!
Hulda descansa depois de longos meses de luta, marcados pela esperança que, ao que relatam as pessoas que acompanharam a irmã nos últimos tempos, somente se intensificou nas últimas semanas! Hulda estava cheia de esperança de melhorar e de voltar para casa – sua casa, a Casa Matriz! Ela contagiava suas cuidadoras com essa esperança!
Faço uma observação sobre o dia em que nossa irmã se entregou, finalmente, ao descanso, da luta que travava pois, quem a viu, sabe quanto lutou, quanto resistiu, quanto quis viver, sobreviver a esta doença que assolou sua saúde, sua energia, seus planos, tudo. Hulda falece, enfim, no final da terça-feira da paixão.
Restam-nos agora 33 horas de Guardamento e Velório!
Não é, no mínimo curioso, que esse tempo de guardamento coincide com as horas de silêncio sobre o que ocorreu na vida histórica de Jesus na Semana Santa?
Acompanhem comigo: O Guardamento e Velório é tempo que se caracteriza por preparativos, encaminhamentos práticos ligados ao sepultamento, às viagens, ao ofício, preparo da documentação legal; tempo em que ocorrem muitas reflexões pessoais e um certo silêncio interior e até, exterior. Lágrimas brotam da gente, vindas de uma fonte bem profunda, que parece inesgotável… no lugar do Guardamento, gente entrando e saindo, respeitosamente, quietinho, pensativo; os que puderem ir ao Velório, observando aquela pessoa amada, antes tão alegre e agitada, agora imóvel; aquela boca tão falante e cantante, agora calada; aquelas mãos tão ágeis, agora repousando!
Serão 33 horas de espera para a despedida! 33 horas de guardamento. 33 horas de velamento.
Por que escrevo isso?
Quarta-feira da Paixão é o tempo em que também não sabemos o que houve com Jesus na sua história. Se recordamos bem, depois de um dia muito movimentado na terça da Paixão para Jesus, que finaliza quando ele é ungido por uma mulher para a sepultura numa festa em Betânia (Mc 14.3-9 e paralelos), acontece um vácuo de 48 horas. A história só retorna na quinta-feira de tarde quando, na cena aparece Jesus instruindo seus discípulos a prepararem a ceia que vão celebrar juntos.
A terça à noite nos dias de Jesus ainda foi também de preparativos. Mas não, preparativos para o bem. Mas para o mal de uma pessoa do bem: de conchavos e reuniões a portas fechadas para planejar a morte de Jesus, em que altas autoridades preparavam ciladas, armadilhas para pegar e exterminar aquele que promovia vida e reconciliava, aninhava ao amor de Deus todos e todas!
Nossa Irmã Hulda nos força a vivermos 33 horas de silêncio, de preparativos, de espera, de pensamentos em muitas direções, de falas aos cochichos – se pudermos velar ali na capela da Casa Matriz, perto da nossa irmã- , ou falas nas mais diferentes formas e tonalidades – também via internet como eu faço aqui. Falar é necessário para elaborarmos nosso luto. Irmã Hulda nos força a 33 horas de orações, perguntas – talvez até ao Deus da vida, que a dá e a tira quando lhe apraz -, horas em que intercedemos pelas pessoas da família que necessitam de mais força e consolo e de maior cuidado e apoio a partir de agora,…
Irmã Hulda também nos propicia que amanhã, na Quinta-feira da Paixão, depois das 33 horas de tempo, nos reunamos mais uma vez, como tantas e tantas vezes, para sua despedida à luz da ressurreição!
E, mais uma surpresa litúrgica, no horário em que, em milhares de igrejas cristã em todo mundo, ministros e ministras renovam seus votos ministeriais, pois na Quinta-feira pela manhã ocorre este rito de renovação dos votos!
“Deus da ternura! Eu renovo o que te disse na minha juventude: Eis-me aqui! Envia-me a mim!”
“Ó Deus, não entendemos tudo! Nem entenderemos! Mas Hulda nos deixa algo muito significativo para pensar e receber! Ela descansou de suas dores físicas, mas sua esperança nunca a deixou. Recebe-a, guarda-a em teu amor! E reúna-nos novamente na ressurreição dos mortos, como prometeste e no que cremos! E nós? Nós, ó Cristo ressurreto, nós seguimos qual os discípulos de Emaús, enlutadas, enlutados, mas reconhecendo que estás conosco! Fica conosco, ó Cristo, que o dia declina e (novamente) a noite vem chegando!” Aquece nosso coração! Rompe sempre de novo o véu de nossos olhos para que te vejamos e te reconheçamos! Aquieta nosso coração nessas horas que temos para pensar simultaneamente na tua história e no que teu Espírito soprar e mover em nossos campos e nossas plantações!
Por Jesus Cristo, teu amado Filho,
Amém!”
Vossa,
Sissi Georg
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Quem quiser escrever uma mensagem de condolências, dirija-as à : casamatriz@diaconisas.com.br