Por ocasião do encontro do Comitê Executivo do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), que teve início no dia 13 de setembro, o pastor presidente da IECLB, Walter Altmann, palestrou na School of Divinity da Universidade de Edimburgo, centro de formação teológica reconhecido internacionalmente. Nesse complexo de prédios realizou-se em 1910 a famosa Conferência Mundial de Missão, nascedouro do ecumenismo moderno.
A palestra – que teve como tema Missão e Desenvolvimento: qual o seu lugar na vida da Igreja? – contou com um público diversificado de estudantes, professores, líderes do movimento ecumênico na Escócia e membros do Comitê Executivo do CMI.
Abaixo, publicamos alguns parágrafos da palestra. O documento completo pode ser lido aqui na íntegra, em inglês.
Missão e Desenvolvimento: qual o seu lugar na vida da Igreja?
Quando nos deparamos com a palavra “missão”, reconhecemos imediatamente o quão preciosa ela é para as igrejas é para o movimento ecumênico. Nós também temos consciência que esse ano celebramos o centenário da Conferência Missionária Internacional, realizada aqui em Edimburgo no ano de 1910 e que deu origem a um processo que em algum momento resultou na criação do Conselho Mundial de Igrejas.
No entanto, é preciso lembrar que a palavra “missão” tem uma origem no período Constantino e com muita frequencia traz uma conotação militar. Se pensarmos em Mateus 28.18-20 e dermos ao trecho uma determinada interpretação, “missão” pode ser entendida como o esforço feito para responder à ordem dada por Deus “para fazer discípulos” de Cristo. Essa tarefa deveria ser realizada com extrema disciplina, usando qualquer meio que fosse necessário.
A partir dessa idéia, venho de um continente onde não se pode facilmente usar a palavra “missão” com uma conotação dogmática. As trágicas conseqüências de tal compreensão para milhões de pessoas indígenas e escravos africanos não podem ser apagadas das nossas consciências.
É fundamental entender missão não como “nossa missão” ou mesmo “missão da igreja”, mas lembrar que “missão” deve ser compreendida como o trabalho de Deus, que mandou seu Filho, que veio para ser condenado à morte pelo amor incondicional e solidariedade que demonstrou a todos os seres humanos, especialmente aos mais desfavorecidos, com o objetivo de resgatá-los da escravidão.
Não é totalmente adequado falar sobre nós, Cristãos, como sendo “agentes” da missão, ou como parte de “agências” missionárias. Antes, somos “pacientes” da missão, pacientes da missão de Deus. Ele veio a nós e nós temos liberdade de nos engajarmos na missão de Deus, permitindo que Ele faça conosco o mesmo que com Cristo, que é o Filho de Deus enviado a nós pelo Pai. Assim, todos os que se fazem disponíveis para as “tarefas missionárias” são, em primeiro lugar, chamados para “sofrer” missão, não para “fazer” missão, muito menos, impor “missão” a outros. Aliás, essa é a maior experiência pela qual os verdadeiros evangelizadores passam: perceber que sempre que evangelizam, em primeiro lugar, eles próprios estão sendo evangelizados
Quando chegamos ao termo “desenvolvimento”, o que se pode dizer? O termo vem sendo usado exaustivamente, também na esfera secular, como algo que pode trazer todas as coisas boas que podemos desejar. Seu significado parece ter algo mágico. Não importa quantas injustiças sociais possa causar, quanta destruição ambiental possa produzir, “desenvolvimento” parece nos prometer uma vida completa. Quais serão então as implicações quando usamos o termo “desenvolvimento”, esperando que a igreja seja seu “agente”? Estaríamos sugerindo uma contribuição para o crescimento econômico e a globalização de mercados em uma ordem universal capitalista?
É preciso lembrar sempre de novo, a nós e aos outros, que na luz de uma fundamentação bíblica e teológica temos que manter os seres humanos no centro de todo “desenvolvimento” no contexto da criação como um todo, na sua dignidade como seres criados à semelhança de Deus. O que está em jogo é a qualidade de vida, não aquela que consiste em acumulação de riquezas, mas no atendimento de necessidades básicas para cada ser humano, caracterizadas pela comida e abrigo, trabalho, educação e saúdo, mas também pela arte, festas, sexualidade, cultura, exercício da cidadania e a prática da fé.