Igrejas brasileiras diante do desafio do diálogo inter-religioso
Entre 9 e 10 de março, ocorreu, no Rio de janeiro, o Seminário Teológico “Ecumenismo no Brasil – Desafios, Anseios e Perspectiva: Uma reflexão sobre o papel das igrejas e organismos no contexto do movimento ecumênico brasileiro”. O evento, promovido pela Comissão Teológica do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), antecedeu a XIV Assembleia do Conselho e propôs-se a refletir a atuação das igrejas cristãs no diálogo inter-religioso, discutindo estratégias para o estabelecimento de uma atuação ecumênica cada vez mais ampla.
“A diversidade das igrejas no Brasil é muito grande. Não há uma resposta única sobre a questão do diálogo inter-religioso. A partir daí, constatamos que nos diversos níveis, institucional ou pessoal, há, a rigor, dificuldade de comunicação de como fazer chegar ao povo a posição oficial da igreja. Falta traduzir para o povo o que a igreja tem a dizer acerca do diálogo e da cooperação com outras expressões de fé”, afirmou o P. Ervino Schmidt, ex-secretário executivo do CONIC e delegado do Centro Ecumênico de Capacitação e Assessoria (CECA) na assembleia.
Em suas reflexões, os participantes passaram a elaborar sugestões claras de incidência ecumênica na questão do diálogo inter-religioso, como a inclusão do tema como matéria no currículo de ensino religioso e a vigilância e eventual denúncia, por parte do CONIC, de situações de intolerância religiosa no país.
Uma das tônicas do seminário foi a convergência em torno de um dos passos metodológicos propostos pela Comissão. O primeiro grande passo para o diálogo seria o reconhecimento do valor do outro. Conforme o documento de síntese do encontro, “reconhecer é mais do que tolerar. Reconhecer é acolher o outro no seu próprio modo de ser, de agir e de crer”.
Tendo como principal finalidade a promoção do diálogo intereclesial, o CONIC vem ampliando a sua ação e acompanhando as iniciativas de diálogo inter-religioso. A motivação para tal vai além dos fatores contextuais. “Mais do que uma exigência da realidade social, para as igrejas o diálogo inter-religioso tem fundamentação bíblico-teológica”, destaca o texto de síntese.
“Para tanto, é necessário que as igrejas desenvolvam, nas comunidades, um processo de educação para o diálogo inter-religioso considerando três elementos: co conhecimento das diferentes tradições religiosas locais, a prática da convivência efetiva e uma espiritualidade de acolhida das diferentes expressões de fé.”, acrescentou o coordenador da Comissão Teológica, Pe. Elias Wolff.
Para o P. Sinodal Jorge Schieferdecker, da delegação da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), “a pluralidade cultural e religiosa do Brasil é um desafio para a Igreja Cristã, especialmente no que tange a prática missionária. Reverência a diferentes expressões de fé é um dos pontos de partida do testemunho evangélico”.
As dicotomias inerentes na relação entre igrejas e organismos ecumênicos também estiveram presente na pauta das discussões. A área da diaconia, não raro, através de seus projetos, tem tido mais contato e incidência em cenários e grupos inter-religiosos. Diante deste cenário, há temor, por parte das igrejas, que o sentido missionário e a abordagem teológica da diaconia se percam ao longo do processo de profissionalização da ajuda humanitária e apoio a projetos de desenvolvimento e defesa de causa. O aspecto missionário, também no serviço das igrejas, foi destacado como sendo uma das ferramentas importantes na reaproximação das duas áreas: “o movimento ecumênico e o diálogo inter-religioso são formas privilegiadas pelas quais a Igreja cumpre sua missão no mundo”, conclui o documento do encontro.
Foto: Schmidt, Schieferdecker e Wolff
Crédito foto: Marcelo Schneider/WCC