Relações de gênero e leitura bíblica
Pa. Gene Lamb1
Criou Deus, pois, o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.” Gênesis 1.271
Se a linguagem tem algum significado, nós temos neste versículo a clara declaração da existência do elemento feminino na divindade, igual em poder e glória ao masculino. O Pai e Mãe Celestial! Deus criou os seres humanos à sua própria imagem, homens e mulheres. (A Bíblia da Mulher, 1898)
A autora desta frase é a escritora americana Elizabeth Cady Stanton. Ela nasceu em 1815 e faleceu em 1902. Inicialmente, ela questionou os argumentos bíblicos usados para legitimar a escravidão. Após a abolição da mesma, em 1863, ela reuniu um grupo de mulheres para ler a Bíblia e interpretar as passagens relacionadas às mulheres. Pois, segundo ela:
Quando as mulheres entenderem que os governos e as religiões são invenções humanas, que bíblias, livros de oração, catequeses e encíclicas são emanações do cérebro do homem, elas deixarão de ser oprimidas pelas imposições que lhes chegam com a autoridade divina do ‘Assim diz o Senhor’.
Podemos até não concordar com a radicalidade da afirmação de que governos e religiões são invenções humanas, porém, verdade é que todas as formas de organização social, divisão de tarefas entre mulheres e homens, jovens, crianças e pessoas adultas são resultado das escolhas e formas de viver adotadas pelas pessoas. Assim, as religiões vêm sempre intermediadas por pessoas humanas que vivem em determinada sociedade e que só conseguem se expressar usando as linguagens, os exemplos compreensíveis pelas pessoas ao seu redor.
Por isso, quando falamos de relações de gênero e leitura bíblica, é necessário aceitar que tanto no processo de redação e tradução da Bíblia, quanto na nossa leitura e interpretação, estão reproduzidos determinados jeitos de imaginar a relação entre mulheres e homens, bem como a relação com a natureza e das diversas gerações entre si. Esse jeito exerce influência até sobre a maneira como se percebe e se fala sobre a manifestação divina.
Lembremos o longo caminho que as palavras percorrem até chegar a nós: ele inicia com a experiência fundante, aquela da qual se fala, até a versão escrita com a qual nós estamos lidando. Muitas são as pessoas envolvidas. Todas certamente se empenham para que tudo seja transmitido da maneira mais correta possível, porém, cada ser envolvido é limitado pelas próprias experiências, inclusive nós hoje. No caso da Bíblia, lidamos com traduções e versões de textos: traduções do hebraico, do grego, do aramaico para o português ou, muitas vezes, até do latim para o português. Versões nas diferentes linguagens, por exemplo: Almeida Revista e Corrigida, Revista e atualizada, Linguagem de Hoje e Nova Tradução na Linguagem de Hoje. O objetivo destas versões é tornar as palavras, boas notícias, Evangelho, mais compreensíveis em cada época. A grande maioria das pessoas costuma dizer: o mais importante é tornar as palavras mais compreensíveis, tornar a mensagem mais clara, o significado deverá permanecer o mesmo. Para as relações de gênero, porém, as palavras escolhidas, na maioria dos casos, fazem grande diferença e a eleição delas já se torna parte da mensagem. Quando se fala da participação das mulheres nas primeiras comunidades cristãs, temos alguns exemplos: existem textos que conseguiram sobreviver às redações preconceituosas, de exclusão das mulheres, mas foram deturpados pelos copistas e tradutores. Ao fazer as cópias, aqueles que tinham o modelo de sociedade caracterizado pelo predomínio do homem, eliminaram nomes e artigos femininos. Por exemplo, em Cl 4.15 encontramos uma saudação a Ninfas e à igreja que se reúne na casa dele. No entanto, existem dois manuscritos (Codex Vaticanus e a Tradução Síria) que se referem “a Ninfa e à igreja que se reúne na casa dela”.
Outro exemplo de tradução preconceituosa, encontramos em Rm 16.7: A saudação ali é para Andrônico e Júnia, “apóstolos importantes”, como diz o texto. Acontece que durante muito tempo Júnia foi traduzida por Júnio, pois os tradutores não podiam aceitar que uma mulher recebesse esse título de apóstolo líder.
Em 1 Co 11.10, dentro da orientação de Paulo sobre a maneira como as mulheres deveriam apresentar-se, ao tomar a palavra nas celebrações, encontramos a frase: “Portanto, a mulher deve ter sobre a cabeça um sinal da sua autoridade por causa dos anjos”. A palavra autoridade, em grego “exsousia”, foi traduzida por “dependência” ou “submissão” em algumas versões. Poderíamos continuar com os exemplos, mas parece esses que já são suficientes para que possamos perceber a necessidade de comparar as diferentes traduções e estudar muito bem antes de fazer afirmações que legitimam exclusões e opressão de homens sobre mulheres por causa de alguns textos bíblicos.
Nos evangelhos encontramos comentários muito rápidos sobre a participação ativa das mulheres no discipulado de iguais, organizado por Jesus (Mc 15.40-41; Lc 8.1-3) ou na liderança de algumas comunidades cristãs (Rm 16.1-2; At 16.13-15). Uma leitura bíblica a partir da ótica de gênero tem procurado mostrar a participação das mulheres no discipulado de iguais e sua importante atuação nas origens do cristianismo. Porém, como a redação da maioria dos textos do Novo Testamento aconteceu quando na sociedade grego-romana havia um forte processo de afirmação da autoridade do homem sobre a mulher, suspeitamos que a transmissão fiel das tradições sobre o movimento de Jesus e a vida das primeiras comunidades cristãs ficou bastante prejudicada.
Nos últimos anos, cada vez mais mulheres foram buscando aprofundamento nos estudos da Bíblia e constataram que temos testemunhos de mulheres que, com suas atitudes, questionavam estruturas de dominação e defendiam a vida do seu povo.
Atividades:
1. “Nenhuma leitura, nenhuma interpretação de texto é neutra. Ela revela, antes de tudo, o que somos, como nos relacionamos, o que sentimos, qual o sentido da vida para nós. Uma leitura bíblica a partir de gênero tem como ponto de partida a maneira como experimentamos a realidade, seja como mulheres ou como homens. É a partir da nossa prática e, sobretudo, a partir das lutas das mulheres e dos homens pela libertação e por condições dignas de vida, que fazemos perguntas ao texto bíblico.” (Mercedes Lopes)
– Discutir esta afirmação e expressar quais são as motivações do seu grupo ao ler o texto bíblico escolhido ou indicado.
2. Para aprofundamento, propomos a leitura comparativa de Marcos 14.3-9; Mateus 26.6-13 e João 12.1-8.A partir da comparação, refletir acerca do que sabemos sobre esta mulher e sobre seu gesto. Qual é a imagem mais conhecida? Aquela na qual a mulher unge os pés de Jesus ou aquela em que ela unge a cabeça de Jesus e assume um gesto reservado aos sacerdotes da época? Por quê? Por que no texto do Evangelho de João a parte referente à memória da mulher não é mencionado?
São perguntas para as quais certamente não vamos encontrar uma resposta certa e única, mas podemos fazer tentativas de reconstrução, deixando claro o nosso propósito de permanecer fiéis ao Evangelho como boa notícia que liberta e reconhece diferenças, porém, que não estabelece hierarquias por causa de origem étnica, gênero, geração ou condição social.
1. Ms. Regene Lamb: mestrado Profissionalizante em Teologia-Educação Comunitária com Infância e Juventude, bacharel em Teologia. Pastora. Santa Cruz do Sul/RS.
Bibliografia:
Lopes,Mercedes. Gênero e Leitura Bíblica. http://teologiaon-line.blogspot.com.br/2012/04/genero-e-leitura-biblica.html (acesso em 30 de outubro de 2012)
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