Eu estava ao volante, quando um casal atravessou a rua no exato momento em que o sinal verde abriu – para mim! A minha reação? Pisei no freio e xinguei. A reação da minha neta, de quatro anos, ‘Calma, vovô!’ No carro, todos rimos. Moral da história: ao xingar, eu estava avaliando e condenando os pedestres. Ao pedir calma, a minha neta estava avaliando e recriminando a minha reação. Quando rimos, avaliamos a bela reação da Marina.
A vida é assim. Estamos sendo constantemente avaliados – e avaliamos a todo instante. Em cada papel que desempenhamos, somos avaliados: como mãe, pai, filha, filho, marido, esposa, Ministro, Ministra, Presbítero, Presbítera, no exercício da nossa profissão, no trânsito, nos momentos de lazer… Bom seria se também nestes papéis reservássemos um tempo para avaliações mais sistemáticas e não deixássemos simplesmente ‘a vida nos levar’!
Inicio com esta colocação para deixar claro que a avaliação de um Ministro da Igreja não é apenas aquele momento tenebroso em que, a cada três ou quatro anos, uma Comissão chega à Comunidade para emitir um julgamento final a seu respeito. Sei que, em alguns momentos, é exatamente esse o clima que se instala, mas essa não é a avaliação que a Igreja pretende.
O Concílio da Igreja de 2002 instituiu na IECLB uma avaliação periódica dos seus Ministros. As normas da IECLB estabelecem que cada Ministro tenha a oportunidade de ser avaliado em um período que não ultrapasse quatro anos de atividade. A forma de avaliar ficou aos cuidados dos Sínodos. Cada Sínodo realiza a avaliação por intermédio de Comissões capacitadas para essa tarefa específica. A partir de uma série de critérios comuns a todos, cada Sínodo criou a sua metodologia própria de avaliação. Fazem parte do processo de avaliação: a elaboração de relatórios, por parte do Ministro e da Comunidade, o diálogo da Comissão com membros da Comunidade, com o Ministro e o Presbitério, a elaboração de um parecer final e a devolução desse parecer, em um momento de diálogo de dirigentes do Sínodo com o Ministro e uma pessoa do Presbitério da Comunidade.
Há avaliações que acontecem em um clima de muita tensão e revelam o que não se pretende na avaliação. O objetivo não é afastar o Ministro, mesmo que, em alguns casos, se chegue a esta conclusão. Membros e Presbíteros da Comunidade não têm a incumbência de antecipar o ‘julgamento final’ sobre o Ministro. Sabemos que o julgamento final cabe a Deus, somente! Há, por outro lado, avaliações que são por demais ‘pacíficas’, em que, para não ofender ninguém, deixa-se a verdade de lado e se avalia, como sendo bom, o que não deveria ter continuidade. Esses riscos que rondam a avaliação devem ser evitados.
Decisivo é ver o momento de avaliação como uma oportunidade! Ela, de fato, é uma oportunidade ímpar, quando é vista no contexto do Planejamento Estratégico da Comunidade. A avaliação nunca deve ter em foco apenas a atuação do Ministro.
Quando a Comunidade estabelece um planejamento, a avaliação é uma entre as várias etapas de um importante processo. Em um planejamento bem concebido, recomenda-se que a avaliação aconteça a cada ano e tenha em vista a ação missionária de toda a Comunidade.
A atuação do Ministro é uma entre as várias questões que são avaliadas. Cabe à Comunidade perguntar se os objetivos estabelecidos foram alcançados ou não. É sua tarefa avaliar o que deve permanecer, o que deve ser mudado e se algo deve ser criado. Uma questão decisiva – mas que se coloca entre várias – é a pergunta se o Ministro, ao final do convênio, permanecerá ou não na Comunidade. Ela é feita tanto ao Ministro como à Comunidade. Convém que o Ministro pergunte-se a respeito da sua própria vocação e da conveniência de permanecer no local em que está atuando. É, ao mesmo tempo, o momento de a Comunidade fazer a mesma pergunta. Cabe à Comissão avaliadora zelar para que estas questões sejam refletidas com toda a objetividade possível.
Que divina e benéfica obra é visitar as Paróquias e Comunidades por meio de pessoas ajuizadas e habilidosas, o Novo e Antigo Testamento nos mostram o bastante (Martim Lutero).
Acompanhamento a Ministros e Ministras
Nenhuma pessoa está livre de passar por crises e, circunstancialmente, estar imersa em situações de conflito. Nem mesmo Ministros ordenados da Igreja. Também Ministros vivem dias de tensão, dor e dúvida. Via de regra, a atuação ministerial transcorre sem maiores sobressaltos. Há, porém, momentos em que crises se instalam em sua vida pessoal, matrimonial ou familiar. É natural que surjam perguntas relacionadas à vocação. Surgem conflitos também no contexto em que atuam.
Muitas vezes, saímos relativamente ilesos, até fortalecidos, das crises pelas quais passamos. Esse é um ideal a ser perseguido, mas nem sempre é assim: muitos Ministros adoecem, vivem rompimentos em seus laços pessoais, se transferem de Comunidade ou deixam de atuar no Ministério ordenado. Mesmo que estes casos não sejam tão frequentes, a pergunta que tem orientado várias pessoas e diversos Sínodos é Quem cuida de quem cuida?
Há cerca de dois anos, o Conselho da Igreja criou umgrupo-tarefa que recebeu a missão específica de estabelecer uma política de pessoal para os Ministros ordenados da IECLB. Os Sínodos se dedicam à tarefa de acompanhar de perto os seus Ministros, com uma série de iniciativas, entre elas visitação, plantão poimênico e cursos específicos voltados para essa área. No Sínodo Rio dos Sinos, foi criado um Conselho de Acompanhamento Pastoral que recebeu a tarefa de estabelecer ações que vão ao encontro da edificação pessoal e vocacional dos seus líderes. O ideal é agir de forma preventiva, para evitar que situações de conflito administráveis cresçam a tal ponto que não possam mais ser solucionadas a contento.